CMP realiza seminário nacional para preparar participação popular na COP30

Em um contexto de agravamento das crises ambientais no Brasil e no mundo, a Central de Movimentos Populares (CMP) promoveu, na última sexta-feira (23), o seminário COP30 – Impactos das Mudanças Climáticas nas Cidades, em Brasília. O evento reuniu a coordenação nacional e lideranças da CMP, de outros movimentos sociais parceiros, além de representantes do governo federal e especialistas em meio ambiente. O objetivo central foi preparar a participação da CMP para a COP30 e discutir como a CMP e demais movimentos e entidades dos movimentos sociais podem intervir de forma concreta nos debates em torno da Conferência, que será realizada em Belém (PA), em novembro de 2025.

Durante a manhã, o seminário abordou os impactos sociais e econômicos das mudanças climáticas, especialmente nas periferias urbanas e no campo. Raimundo Bonfim, coordenador nacional da CMP, abriu as discussões:

“O seminário da CMP marca o início de uma agenda de mobilização que deverá se intensificar nos próximos meses. Para nós da CMP, a COP30 representa não apenas um evento diplomático, mas uma oportunidade estratégica para que as vozes historicamente silenciadas ocupem o centro do debate sobre o futuro do planeta“, avaliou Bonfim após o evento.

Presente no seminário, Sandra Paula Bonetti, diretora de Meio Ambiente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), alertou sobre como o clima afeta diretamente o cotidiano da agricultura familiar.

“Queremos que a classe trabalhadora esteja contemplada no plano clima, que os agricultores familiares estejam lá. Precisamos estar nas discussões porque nós somos os impactados. As grandes indústrias e o agronegócio estão no debate, com o discurso na ponta da língua. Então, se não nos colocarmos como parte da solução, não seremos contemplados na agenda.”

Outro ponto destacado pelos participantes foi a responsabilidade do agronegócio no agravamento da crise ambiental. Anderson Amaro, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), reforçou que a maior parte das emissões de gases de efeito estufa na agricultura brasileira vem do modelo de produção intensivo e mecanizado voltado para exportação, e não da agricultura familiar.

“É necessário produzir respeitando o meio ambiente, ressignificando o processo produtivo. A agricultura camponesa esfria o ambiente, porque é um processo produtivo integrado com a natureza. Como discutir novos sistemas alimentares respeitando o meio ambiente? Devemos aproveitar a Conferência para trazer um contraponto ao que as grandes corporações estão fazendo.”

Transição ecológica e políticas públicas

Representando o Ministério do Meio Ambiente, Lincoln Alves trouxe uma perspectiva técnica sobre os desafios da transição ecológica no país. Ele afirmou que os impactos climáticos já estão sendo sentidos na vida cotidiana da população, desde o aumento das contas de luz até desastres ambientais como secas extremas e enchentes. Segundo ele, “o governo federal está revisando o Plano Nacional sobre Mudança do Clima e buscando a adesão dos estados para implementar ações locais que respondam a esse novo cenário“.

Em seu discurso no seminário, Marilda Cohen, chefe da Assessoria de Participação Social e Diversidade do Ministério das Cidades, destacou a visão urbana dos impactos climáticos. Ela chamou atenção para o fato de que as populações mais vulneráveis — como moradores das periferias, comunidades ribeirinhas e povos indígenas — são as que mais sofrem com os eventos climáticos extremos. Deslizamentos, enchentes e a falta de acesso à infraestrutura básica expõem essas comunidades a riscos cada vez maiores.

Também participou do seminário Cristiane Pereira dos Santos, chefe de assessoria de Participação Social e Diversidade do Ministério da Saúde. Em sua fala, ela destacou a importância de construir uma vigilância popular em saúde, especialmente diante dos impactos ambientais nas comunidades mais vulneráveis.

“Na saúde estamos debatendo uma vigilância popular, pois é na base que sabemos de fato o que está acontecendo. Para combater o mosquito da dengue, por exemplo, é no território. Ninguém sabe melhor do impacto ambiental que os nossos companheiros que estão na ponta. Queremos formar pessoas para essa vigilância popular em saúde, que pode ser um instrumento muito importante para detectar o que acontece na sociedade“, ressaltou.

Pautas populares e luta política.

No período da tarde, o seminário avançou para o debate sobre estratégias de mobilização popular em torno da COP30. Os participantes enfatizaram que a conferência, apesar de seu caráter técnico e institucional, também deve ser uma oportunidade para que os movimentos populares fortaleçam suas pautas e ocupem espaços de visibilidade internacional.

Para Elisa Strognoli, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), é preciso reconhecer que a crise climática é inseparável da lógica do sistema capitalista, que prioriza o lucro em detrimento da vida.

“O sistema capitalista é o responsável. Num sistema em que a prioridade é gerar cada vez mais lucro, só existem dois caminhos: explorar mais trabalhadores e avançar sobre a natureza. Não se pode esperar que a solução venha disso. A COP deve ser entendida como um processo de luta“, ressaltou.

Na mesma linha, Sandra Cantanhede, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), destacou que o atual modelo de desenvolvimento é incompatível com a justiça climática. “Eventos climáticos extremos têm impactado a vida dessas pessoas, e são apresentadas falsas soluções que só favorecem o lucro e o capital. Justo quem sempre defendeu o clima e a floresta, como os povos originários, estão sendo expulsos de suas terras. Não é o povo o responsável pelo aquecimento global, temos de compreender que existem responsáveis, que devem ser cobrados. O 1% mais rico da população consome o dobro da metade da humanidade. Então precisamos organizar força popular para enfrentar os responsáveis“, avaliou.

Encerrando o encontro, Renata Porto, coordenadora adjunta do GTT COP30, da Secretaria-Geral da Presidência da República, apresentou a estrutura organizativa da COP30 e reforçou o compromisso do governo com a participação da sociedade civil. Ela explicou que estão previstos espaços para o diálogo com movimentos populares, que deverão ser articulados nos próximos meses.

No final do evento, Raimundo Bonfim, coodenador nacional da CMP, destacou que a CMP continuará promovendo debates e se organizando para para participar da COP30.

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