Raimundo Bonfim publica artigo no Brasil 247 sobre a COP30 e a luta por justiça climática

O coordenador nacional da Central de Movimentos Populares (CMP), Raimundo Bonfim, publicou artigo no portal Brasil 247 em que faz uma reflexão sobre os rumos da COP30, realizada em Belém (PA).

No texto, “COP30: os donos do lucro decidem, e o povo paga a conta”, Bonfim denuncia a desigualdade nas decisões sobre o clima e alerta que, enquanto líderes e corporações debatem em salões de luxo, o povo das periferias e do campo enfrenta os impactos reais da crise ambiental.

O artigo destaca a importância da Cúpula dos Povos, que acontece paralelamente à COP 30, e reúne movimentos populares, sociais, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e camponeses do Brasil e de todo o mundo para denunciar o sistema capitalista de produção, debater justiça socioambiental e transição ecológica justa. Veja o artigo na íntegra abaixo:

COP30: os donos do lucro decidem, e o povo paga a conta

Enquanto líderes e corporações debatem o clima em salões de luxo, o povo das periferias enfrenta os impactos reais da crise ambiental sem voz nem vez
O fato de o Brasil sediar a COP30 (Conferência do Clima da ONU) em novembro de 2025, em Belém, é motivo de orgulho para alguns. Para nós, dos movimentos populares, é razão de alerta. Enquanto chefes de Estado, grandes empresas e bilionários discutem a questão ambiental em salas fechadas e climatizadas, os verdadeiros impactados pelas mudanças climáticas seguem do lado de fora, invisíveis, sem voz e sem espaço real de participação.

Nas periferias das cidades e no campo, a crise climática já é realidade: seca prolongada em algumas regiões e enchentes concentradas em outras, deslizamentos, calor extremo, falta d’água, saneamento básico precário, milhões de pessoas vivendo na pobreza e jogadas em favelas, beiras de córregos, palafitas, encostas de morros — situação que tem se agravado com o aumento nos preços dos alimentos e da energia. Enquanto isso, a COP30 segue um modelo de negociação que prioriza o mercado e o capital. Os efeitos da destruição ambiental atingem primeiro as nossas vidas e nossos territórios, mas o direito de influenciar nas soluções nos é negado.

Nos últimos meses, a Central de Movimentos Populares (CMP) realizou três seminários que reuniram lideranças de todo o país para discutir a COP30 e os impactos das mudanças climáticas nas cidades. A conclusão é inequívoca: para a CMP e para um conjunto de movimentos populares, a COP30 não é motivo de comemoração. É um momento fundamental para denunciar e exigir que os governos tomem medidas firmes, urgentes e estruturais diante da enorme crise climática que assola o mundo. E que os países ricos e responsáveis pela destruição ambiental paguem a conta para enfrentar a crise da emergência climática. Este não será um evento de celebração, mas um espaço de cobrança e visibilidade popular. Afinal, quem mais sofre com os desastres ambientais decorrentes da emissão de gases de efeito estufa na atmosfera — provocados especialmente pelo desmatamento e queimadas nas florestas e biomas, criação de gado e demais danos causados pelo agronegócio — é o povo das periferias. A conta climática já chegou — e nós é que estamos pagando.

É urgente desmistificar a ideia de que somos todos igualmente responsáveis pela crise climática. Não somos. Os grandes emissores de gases poluentes são os países ricos, as grandes corporações, o agronegócio intensivo e o modelo extrativista de desenvolvimento. O sistema capitalista que prioriza o lucro a qualquer custo é o grande responsável por este colapso ambiental e climático. E, enquanto os mesmos de sempre lucram com a destruição ambiental, é o povo empobrecido quem sofre com os impactos.

Para mudar isso, não basta pedir “espaço na COP”. É preciso ocupar. A CMP defende a construção de uma Cúpula dos Povos, um espaço autônomo, popular e combativo, que coloque no centro do debate as verdadeiras soluções: a transição energética justa, o fortalecimento da agricultura familiar e camponesa, o reflorestamento das florestas, a agroecologia e a produção de alimentos saudáveis, a demarcação dos territórios indígenas, a garantia de moradia digna e cidades justas do ponto de vista econômico, social e ambiental. E uma nova relação entre as cidades e os biomas.

Entendemos que a luta contra a destruição do meio ambiente está associada à luta por justiça social, cidades justas, soberania alimentar e outro modelo de sociedade. E nós, dos movimentos populares, das periferias, do campo, das florestas e das águas, temos o dever de defender essas pautas de interesse do povo.

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