A cada novo relatório científico, a emergência climática revela um cenário mais dramático. Mas é ilusão acreditar que o aquecimento global é apenas um problema técnico, resolvível com ajustes pontuais ou políticas ambientais isoladas. A verdade é simples e incômoda: não há como separar as empresas e os países do centro do capitalismo mundial de seu papel como protagonistas da destruição ambiental. Em cada espaço de avanço do capital, há destruição da natureza e dos territórios da classe trabalhadora.
No campo, vemos o agronegócio avançar como um rolo compressor, destruindo florestas, águas e rios, e expulsando comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas. Nas cidades, a lógica é a mesma: a especulação imobiliária transforma o espaço urbano em mercadoria cara e inacessível, produzindo favelas, desemprego, miséria, fome e violência. Onde o Estado se ausenta, o crime organizado ocupa. Essas cenas da luta cotidiana da classe trabalhadora são as expressões da crise ambiental. Portanto, ela não é uma abstração ecológica; é social, política e territorial.
Por isso, unir as lutas do campo e da cidade não é um gesto simbólico, mas uma necessidade estratégica. É claro que ações de mitigação e adaptação são urgentes. Cozinhas solidárias, hortas comunitárias, mutirões populares, moradia digna e agroecologia são exemplos de práticas que transformam territórios e vidas. Mas, sozinhas, essas iniciativas não atacam a raiz do problema: um sistema que lucra destruindo o planeta e sacrificando os mais pobres.
Dentro do próprio movimento popular, convivemos com três visões sobre esse desafio. A primeira, pessimista, já decretou a vitória definitiva do capitalismo e acredita que nos resta apenas nos adaptarmos ao caos climático. A segunda aposta na disputa dentro dos limites do próprio sistema, como se fosse possível coexistir com uma estrutura fundada na desigualdade. A terceira – e aquela que defendo – afirma que enfrentar a emergência climática exige enfrentar o capitalismo, articulando lutas concretas nos territórios a um projeto político mais amplo de transformação social.
É por isso que espaços como a Cúpula dos Povos são fundamentais. Neles, disputamos não apenas políticas públicas, mas visões de mundo. E é também por isso que a criação da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo segue sendo um marco histórico: há dez anos, elas se consolidaram como instrumentos de resistência democrática, enfrentamento à extrema-direita e defesa de governos populares. Mas nenhum instrumento, por mais importante que seja, substitui a força viva da organização popular.
As Frentes deram impulso ao governo federal para lutar por uma agenda popular e progressista para o Brasil. Entre essas conquistas está a denúncia irrefreada dos movimentos sociais contra o desmatamento, que culminou na vitória do atual governo, com a redução de 11,08% na Amazônia, em comparação aos 50% registrados em 2022, no período do desgoverno de Jair Bolsonaro. Foi a mobilização nas ruas e nas redes que derrotou projetos reacionários, como o PL da Bandidagem no Congresso (PEC 3/2021). Ao contrário das ações das bancadas da Bala, da Bíblia e do Boi – que configuram alas conservadoras e centralizadoras da riqueza nacional –, que fazem um desserviço no Congresso Nacional, atrasando temas como a isenção do Imposto de Renda para os mais pobres, a taxação dos mais ricos e defendendo as bets.
Para apoiar a reconstrução do país, serão essas mesmas mobilizações que poderão enfrentar, de forma estratégica e duradoura, a crise climática e seus responsáveis – os mesmos que promovem o atraso e a desigualdade no Brasil.
A escolha diante de nós não é entre o caos e a adaptação. É entre aceitar a destruição como destino ou construir, com luta e organização, um outro modelo de sociedade – justo, solidário e verdadeiramente sustentável. O futuro depende da nossa capacidade de enfrentar o sistema que produz a crise e de fortalecer as lutas que já estão fazendo nascer um outro mundo possível.
Raimundo Bonfim – coordenador nacional da Central de Movimentos Populares (CMP)