Reunida em Brasília, em fevereiro de 2026, a Coordenação Nacional da Central de Movimentos Populares (CMP) – com presença em 21 estados da federação e mais de 4 mil entidades de base filiadas – apresenta a seguinte análise de conjuntura e os desafios para este ano. O mundo que emoldura as eleições brasileiras de 2026 difere drasticamente daquele de quatro anos atrás.
A consolidação de um novo ciclo de poder sob a liderança de Donald Trump nos Estados Unidos, a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, o bloqueio a Cuba, os tarifaços e a ofensiva militar coordenada com o governo de Benjamin Netanyahu contra o Irã, somados ao esgarçamento acelerado do multilateralismo, redesenham o tabuleiro geopolítico global. O que se assiste é uma ordem internacional cada vez mais militarizada, menos mediada por organismos de cooperação e mais regida pela força bruta, com consequências diretas sobre mercados energéticos, cadeias produtivas e soberanias nacionais.
O Brasil não será coadjuvante nesse cenário. Detentor de recursos naturais estratégicos — como as maiores florestas tropicais, mananciais de água doce e vastas reservas de terras raras do planeta -, protagonista na agenda ambiental e alimentar e voz relevante no Sul Global, o país insere-se no centro da disputa por hegemonia. Portanto, a eleição de 2026 transcende a política doméstica: é uma decisão sobre o lugar do Brasil em um mundo em convulsão.
No plano interno, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva apresenta avanços concretos na recomposição do emprego e da renda, no combate à fome e à pobreza e na diminuição da desigualdade social. Houve progressos em temas de justiça tributária e redistribuição, como a isenção de IR para quem recebe até R$ 5 mil mensais. Contudo, o passivo social acumulado por séculos e, especialmente, o desmonte ocorrido nos governos Temer e Bolsonaro permanecem imensos. A concentração de renda, o racismo estrutural, a violência de gênero, a precarização do trabalho e a hegemonia do capital financeiro — expressa em uma política de juros elevados que transfere riqueza do trabalho para a especulação — seguem como feridas abertas.
A esse quadro soma-se a proliferação das apostas eletrônicas (bets), que a CMP denuncia como instrumento de alienação e empobrecimento da população, sobretudo nas periferias. As bets agravam o endividamento familiar, deterioram a saúde mental e desviam recursos de necessidades básicas, exigindo proibição imediata.
A CMP, protagonista nas mobilizações em defesa da democracia, contra o fascismo, pelo direito à cidade e à moradia, à saúde e ao trabalho digno, reconhece os avanços do governo Lula sem perder de vista as contradições e limitações. No enfrentamento ao feminicídio e a toda forma de violência contra a mulher, a Central abraça a convocação do presidente para que os homens assumam responsabilidade direta nessa luta. Como expressão concreta desse compromisso, a CMP apresenta Miriam Hermógenes como coordenadora-geral, substituindo Raimundo Bonfim, que se licenciou do cargo para assumir a Diretoria de Participação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República. Miriam torna-se, assim, a primeira mulher a assumir a coordenação-geral na história da entidade.
O cenário eleitoral aponta para uma disputa central entre Lula e Flávio Bolsonaro, cristalizando a polarização entre o projeto democrático-popular e o projeto ultraconservador. Não há eleição ganha de antemão. O bolsonarismo mantém uma base social coesa, capilaridade digital robusta e articulação com setores empresariais e religiosos, além do risco de interferência internacional via plataformas digitais e fluxos financeiros. A CMP delibera que a principal tarefa do campo popular em 2026 é assegurar a reeleição de Lula como condição inegociável para preservar a democracia e os direitos.
Para garantir a vitória, é fundamental a unidade de todos os partidos do campo progressista e das frentes populares. Nesse contexto, a pauta da escala 6×1 surge como símbolo da exploração contemporânea, indo além da jornada: é um debate sobre tempo de vida e saúde mental. Para a CMP, que caminha lado a lado com trabalhadores e trabalhadoras nas periferias, politizar e defender essa pauta significa reconstruir a consciência de classe. A reeleição de Lula torna-se, portanto, indispensável, sendo seu governo o único capaz de enfrentar essa agenda sob a ótica de quem trabalha.
Diante disso, a Central de Movimentos Populares reafirma seu engajamento total na reeleição de Lula, compreendendo-a como um movimento político de massa pela soberania nacional. A CMP veda que qualquer instância ou dirigente apoie candidaturas do campo bolsonarista ou da direita. O ano de 2026 marcará uma decisão histórica entre a continuidade democrática e o retorno de um projeto autoritário alinhado à financeirização extrema. A CMP está com Lula porque a unidade não elimina o debate — ela o organiza em torno de um horizonte maior. A disputa será voto a voto, consciência a consciência.
Central de Movimentos Populares (CMP) — Brasília, fevereiro de 2026