O deputado federal Nikolas Ferreira publicou, no sábado (1) um vídeo afirmando que novas revelações sobre a pandemia da covid-19 comprovariam que medicamentos como ivermectina e cloroquina funcionam, que o uso de máscaras foi ineficaz e que o médico norte-americano Anthony Fauci teria admitido erros e irregularidades na condução da crise sanitária.
A página de Olho na Mentira da CMP foi conferir as alegações e a conclusão é que o vídeo reúne informações falsas e fora de contexto para construir uma narrativa enganosa sobre fatos que já foram amplamente debatidos e esclarecidos pela comunidade científica.
Logo no início, Nikolas afirma que a ivermectina teria 70% de eficácia contra a covid-19. A informação, porém, não surgiu do depoimento de Fauci nem representa uma descoberta científica recente. O percentual foi citado pelo secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., durante uma entrevista, sem apresentar evidências que alterem o consenso científico. Até hoje, estudos de alta qualidade e as principais autoridades de saúde do mundo continuam afirmando que não há comprovação de eficácia da ivermectina ou da cloroquina no tratamento da covid-19.
Na sequência, o vídeo afirma que Fauci autorizou experimentos com “partes de bebês abortados” transplantadas para camundongos. A frase é construída para causar impacto, mas omite o contexto. O que existiram foram pesquisas biomédicas financiadas pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) que utilizaram tecido fetal humano obtido legalmente, dentro de protocolos éticos e de regras estabelecidas há décadas para esse tipo de pesquisa. Isso não significa que Fauci tenha realizado abortos, comprado fetos ou conduzido experimentos clandestinos, como a publicação induz o telespectador/internauta a acreditar.
Outro ponto abordado diz respeito aos casos de miocardite após a vacinação. Nesse caso, o vídeo parte de um fato verdadeiro, mas omite uma informação essencial. Casos raros de miocardite e pericardite realmente foram identificados, principalmente entre adolescentes e homens jovens, e esse risco foi reconhecido pelas autoridades sanitárias ainda em 2021. O que Nikolas deixa de dizer é que a própria infecção pelo coronavírus apresenta um risco significativamente maior de provocar miocardite e outras complicações cardiovasculares do que a vacinação, razão pela qual os benefícios das vacinas continuaram superando os riscos.
A mesma estratégia aparece quando o deputado afirma que Anthony Fauci teria admitido que as máscaras “não funcionavam”. Isso também não corresponde ao que foi dito. Durante seu depoimento, Fauci afirmou apenas que não se lembrava de ter analisado pessoalmente estudos específicos sobre o uso de máscaras por crianças em determinadas recomendações. A declaração foi retirada do contexto para sugerir que ele reconheceu a ineficácia das máscaras, quando diversos estudos científicos demonstraram que elas reduzem a transmissão de vírus respiratórios, especialmente em ambientes fechados e de maior risco.
Por fim, o vídeo mistura entrevistas concedidas em anos diferentes, trechos de audiências realizadas em 2024, depoimentos recentes de 2026 e declarações de diferentes personagens para criar a impressão de que tudo faz parte de uma única revelação sobre a pandemia. Não faz. São episódios distintos, reunidos de forma seletiva para reforçar uma narrativa que contradiz as evidências científicas acumuladas desde o início da covid-19.
Em outras palavras, o vídeo de Nikolas Ferreira não apresenta fatos novos sobre a pandemia. Ele reorganiza informações antigas, omite contexto e transforma declarações isoladas em mentiras que não encontra respaldo nas evidências científicas disponíveis