Impactos da Pandemia de Covid 19 na Saúde Mental

Leia o artigo de Darly Dalva Silva Máximo, Psicóloga e Militante da CMP-DF

No final de 2019 começamos ouvir, principalmente por meio da imprensa, as primeiras notícias de um vírus mortal, o Coronavírus, que viria mais e não muito mais tarde avassalar o planeta Terra provocando um caos nas emoções da população e uma desorganização no sistema de saúde de todos os países por onde ele ia passando.  O Coronavírus teve as primeiras manifestações na China, mas enquanto por lá estava  nunca se imaginou que se tratava de um vírus devastador que viria matar milhões de pessoas em todo o mundo.

No inicio de 2020 já se tinha notícias de que, mesmo com todos os cuidados tomados pelas autoridades chinesas, o vírus se espalhava com assustadora rapidez que ficamos todos inseguros em relação ao futuro.

Em março de 2020 a OMS – Organização Mundial de Saúde declarou que o mundo estava diante de uma pandemia, a Covid 19. No Brasil ela já tinha se espalhado com tal rapidez que o meio científico já aconselhava ao governo quanto a necessidade de adotar medidas mais drásticas no controle da proliferação. O Ministério da Saúde no afã de colher o bônus político de situação, começou a incentivar a comunidade científica a desenvolver estudos para a produção de vacinas, buscando insumos da China que já estava bem adiantada e já tinha iniciado a vacinação da sua população exportando a matéria prima da mesma para que os países a produzisse, no entanto o nosso governo jogava contra e isso retardou o início da vacinação da população brasileira.

Com a evolução da pandemia e consequentemente o caos no sistema de saúde foi se instalando, tanto na rede pública quanto na privada obrigando as autoridades sanitárias realocarem recursos para combater ou pelo menos controlar a proliferação do vírus diminuindo assim os impactos na vida das pessoas e na economia do país. Os primeiros impactos foram na própria área de saúde, infectando os profissionais de saúde da linha de frente nos hospitais e a população idosa. À medida que os estudos sobre os males causados pelo vírus iam impactando na vida das pessoas o terror ia tomando conta delas e sistema de saúde teve que se adequar a uma nova realidade em detrimento de outras, por exemplo as cirurgias eletivas, a atenção primária e outras doenças crônicas, pois o sistema de saúde teve que deslocar servidores dessas áreas para a atenção nos serviços hospitalares.

Diante do caos instalado e com e a determinação de lockdown em vários estados foi inevitável que milhares de pessoas perdessem o seu emprego e ficassem isolados em casa sem poderem sair dela nem para comprar um pão na padaria e isso levou aqueles que ainda tinham seus empregos estocarem mantimentos e medicamentos evitando, assim, a exposição.

Com o isolamento das pessoas em seus domicílios, o medo do futuro e as perdas de seus entes queridos instalou-se o pavor coletivo chegando-se ao ponto de que o fato de alguém espirrar ou tossir perto de outro causava constrangimento.

Com o pavor coletivo instalado não foi difícil observar-se o aumento dos transtornos mentais provocados pela pandemia, bem como os traumas psicológicos provocados diretamente pela infecção ou por seus desdobramentos secundários.

O convívio prolongado no ambiente familiar aumentou o risco de desajustes nas relações familiares e o principal deles foi o aumento da violência doméstica onde os principais alvos foram as crianças e as mulheres. A mulheres acabaram sofrendo dupla violência porque ao defenderem suas crias automaticamente eram também violentadas. Estudos informam que houve um incremento em torno de 40% de casos de violência doméstica praticada contra as mulheres.

Como sabemos o ser humano é gregário e uma vez tolhido dessa condição reage de forma mais variada de indivíduo pra indivíduo. No início da pandemia algumas pessoas até gostaram da ideia de ficarem um pouco em casa com a família, mesmo que por officce home, mas estariam em casa. Com o passar dos meses nada se modificava e para agravar mais ainda a situação as notícias eram sensacionalistas por demais, a qualquer momento do dia que se ligasse os aparelhos de TV ou rádio o pânico estava instalado e quase como um mecanismo de defesa algumas pessoas acreditavam em tudo e outras não como forma de sobrevivência, vimos isso muito na população jovem, uma vez que alegavam que o vírus só pegava em velhos, esquecendo-se de que eles tinham familiares idosos.

Rapidamente a pandemia foi tomando conta do planeta e nos demos conta de que não eram só os idosos que estavam a serem infectados, mas jovens também até porque estavam se expondo mais e atualmente as crianças também.

Com a população mundial sendo dizimada, a comunidade científica debruçou-se em estudos para descobrir e criar vacinas mais eficazes que as demais e graças a esses esforços estamos mais confiantes, pois mesmo com as variantes do vírus que estão surgindo encontram uma população imunizada e os seus efeitos não são tão arrasadores em quem está vacinado.

Diante de todo o mal que a pandemia acarretou na população temos os sequelados e as suas reações psíquicas e como já mencionei anteriormente a depressão e a ansiedade (crises de pânico, comportamentos obsessivos compulsivos, alterações do sono e o abuso de bebidas alcóolicas e outras drogas) são as consequências mais comuns, que resultam em incapacidade para o trabalho, estudo e relações interpessoais. Embora o impacto da disseminação da pandemia para as doenças psíquicas ainda esteja sendo mensurado, as implicações dela na saúde mental já foram relatadas nos meios científico, mas continuamos nas nossas lutas por um mundo melhor.

Darly Dalva Silva Máximo

Psicóloga Clínica com Especialização de TCC – Terapia Cognitiva Comportamental

Membra do Setorial da Saúde e da Direção Nacional da CMP – Central de Movimentos Populares

Bolsonaro Nunca Mais! Movimentos populares vão às ruas neste sábado

Movimentos populares, sociais e sindicais saem às ruas no próximo sábado (09/04) para protestar contra o governo Bolsonaro. As mobilizações acontecerão em pelo menos 42 cidades e terão como tema “Bolsonaro Nunca Mais, contra o aumento dos combustíveis e do gás, não ao desemprego e à fome”.

Os protestos são fruto de uma iniciativa da Campanha Fora Bolsonaro, entidade que congrega diversos movimentos e frentes de lutas como, por exemplo, a Central de Movimentos Populares (CMP). A mobilização nacional irá denunciar nas principais ruas do país a gravidade da crise econômica, social, ambiental e cultural que assola o Brasil. (Confira abaixo uma lista parcial de locais dos atos).

Em 40 meses de governo Bolsonaro, as condições de vida da população brasileira pioraram significativamente e, por essa razão, é necessário ampliar a luta por mudanças profundas e emergenciais. Hoje, quase 60% da população brasileira não tem comida no prato. O desemprego atinge mais de 12 milhões de brasileiros. Há ainda mais de 125 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar e outras 200 mil estão vivendo nas ruas por não ter onde morar.

Raimundo Bonfim, coordenador nacional da CMP, aponta que as pessoas estão desesperadas por não conseguir mais arcar com os sucessivos aumentos na conta de luz, do gás de cozinha, dos combustíveis, dos medicamentos e dos alimentos. “O Brasil não aguenta mais a irresponsabilidade, os crimes, os horrores e a desumanidade praticada pelo governo. Bolsonaro desmantelou o país e deixará um legado de destruição para a população brasileira e os futuros governantes que o sucederão a partir do ano que vem. Não podemos aceitar que não haja alternativas para combater à fome, o desemprego, a miséria e a inflação”, aponta Bonfim.

Além de acabar com as políticas de combate à pobreza no Brasil, o governo Bolsonaro tem protagonizado muitos casos de corrupção. No mais recente, Milton Ribeiro, o então ministro da Educação, foi pego em gravações dizendo repassar verbas da pasta para municípios indicados por dois pastores a pedido do presidente. Após o caso ter ocupado as páginas do noticiário, Ribeiro pediu demissão e, para abafar o caso, rapidamente a rede bolsonarista aumentou a dose de notícias falsas na internet para criar cortinas de fumaça e desviar do assunto.

“É necessário intensificar as mobilizações de rua pelo fim deste governo genocida. É imprescindível acumular força social para enfrentar qualquer tentativa de golpe, caso decidam não aceitar o resultado das urnas eletrônicas”, ressalta.

Confira abaixo os locais das mobilizações já confirmados:

Norte
AP – Macapá – Praça da Bandeira | 16h
PA – Belém – Escadinha da Presidente Vargas | 8h

Nordeste
BA – Itabuna – Praça Adami | 9h
BA – Feira de Santana – Estacionamento em frente à prefeitura | 8h30
BA – Salvador – Concentração no Campo Grande | 14h
CE – Fortaleza – Praça Portugal | 15h
MA – Imperatriz – Calçadão, Centro | 9h
MA – Santa Inês – Praça das Laranjeiras | 8h
MA – São Luís – Praça João Lisboa | 9h
PE – Recife – Parque Treze de Maio | 9h
PI – Teresina – Praça da Liberdade | 8h
SE – Aracaju – Praça de Evento dos Mercados | 8h
RN – Natal – Em frente ao Midway | 15h

Centro-Oeste
DF – Brasília – Museu da República | 16h
GO – Goiânia – Praça do Trabalhador | 16h
GO – Rio Verde – (Aguardando Infos) | 9h
MS – Campo Grande – Avenida Afonso Pela c/ 14 de Julho | 9h

Sudeste
MG – Barbacena – Praça São Sebastião | 8h30
MG – Belo Horizonte – Praça Afonso Arinos | 9h30
MG – Juiz de Fora – Parque Halfel | 10h
MG – Montes Claros – Mercado Municipal | 8h
RJ – Campo dos Goytacazes – UFF Campos | 9h
RJ – Rio de Janeiro – Candelária | 10h
SP – Botucatu – Praça do Bosque | 14h
SP – Jaguariúna – Campinas Largo do Rosário | 9h
SP – Marília – Praça da Ilha, em frente a Galeria Atenas | 9h30
SP – Osasco – Estação de Osasco | 12h30
SP – Ribeirão Preto – Esplanada Theatro Pedro II | 9h
SP – Santos – Estação da Cidadania, Av. Ana Costa 340 | 16h
SP – São Paulo – Praça da República | 14h
SP – São Vicente – Praça Barão | 10h

Sul
PR – Cascavel – Em frente a Catedral | 9h
PR – Curitiba – Praça Generoso Marques | 14h30
PR – Umuarama – Praça Arthur Thomas | 10h
PR – Foz do Iguaçu – Praça da Bíblia | 18h
RS – Novo Hamburgo – Praça do Imigrante | 10h
RS – Pelotas – Mercado Público | 10h
RS – Porto Alegre – Largo Glênio Peres | 15h
RS – Santa Maria – Praça Saldanha Marinho | 14h
SC – Florianópolis – Largo da Alfândega | 9h
SC – Joinville – Praça da Bandeira | 14h

Vitória dos movimentos populares: Barroso estende veto a despejos no país

Os movimentos populares e os trabalhadores sem teto conquistaram, nesta quarta-feira (30/03), uma importante vitória no Supremo Tribunal Federal. O ministro Luís Roberto Barroso decidiu prorrogar a vigência da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 828, que impede despejos no campo e na cidade durante a pandemia.

Para Raimundo Bonfim, coordenador nacional da Central de Movimentos Populares (CMP), entidade que integra a Campanha Despejo Zero, a prorrogação da medida judicial é fruto da jornada de lutas e mobilizações realizadas em todo o país contra os despejos. “A moradia é um direito fundamental para a garantia de uma vida digna e do direito à cidade. Mais de meio milhão de pessoas estavam ameaçadas de serem retiradas à força de suas casas, caso não houvesse a prorrogação da ADPF 828. Felizmente o ministro entendeu a necessidade de proteger os mais vulneráveis em suas casas em meio às graves consequências da crise sanitária”.

No despacho, o ministro destacou que a pandemia ainda não acabou, apesar da melhora no cenário com a evolução da vacinação e da redução de óbitos e de novos casos. Ele também fez um apelo para que os órgãos públicos desenvolvam políticas habitacionais a fim de evitar o aumento da população sem teto no Brasil. Esta é a segunda vez que o Barroso prorroga o prazo para suspender reintegrações e despejos coletivos urbanos e rurais.

Mesmo após a decisão do STF, o advogado Benedito Barbosa, o Dito, dirigente da CMP e um dos articuladores da Campanha Despejo Zero, ressalta que a luta dos movimentos populares do campo e da cidade por moradia seguirá firme no país. Ele participou ontem da audiência com o ministro Luís Roberto Barroso e entregou ao magistrado cartas dos trabalhadores sem teto. Questionado sobre a prorrogação do veto a despejos no Brasil, Dito conta que recebeu a notícia com muita alegria.

“Nós respiramos com a decisão do Barroso, mas sabemos que o Brasil precisa de uma alternativa definitiva para garantir o direito à moradia no campo e na cidade. Penso que a saída para a habitação está no Congresso Nacional. Os deputados têm a responsabilidade de apresentar uma regra de transição e evitar despejos no país. A união dos movimentos foi emocionante. Viva a Campanha Despejo Zero, viva a unidade popular”, finaliza Dito.

CMP participa de assembleia com mais de mil trabalhadores sem teto em SP

Em uma assembleia organizada pela Unificação das Lutas de Cortiço e Moradia (ULCM), na zona leste de São Paulo, cerca de mil trabalhadores sem teto se reuniram neste domingo (27), contra os despejos no Brasil e pela prorrogação da vigência da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 828, no Supremo Tribunal Federal, que impede remoções no campo e na cidade durante a pandemia. No evento, moradores da ocupação Jorge Hereda receberam as famílias das ocupações Terra Prometida e Estrela de Davi para juntos travarem uma agenda de luta na capital paulista.

A Central de Movimentos Populares (CMP) participou do encontro e esteve representada por Raimundo Bonfim, coordenador nacional da entidade, e por Benedito Barbosa, o Dito, coordenador da CMP em São Paulo. Ambos falaram sobre a importância da ADPF 828 em um momento em que o país soma mais de 12 milhões de desempregados e vive uma inflação recorde com aumentos sucessivos dos preços dos alimentos, gás de cozinha, energia elétrica e combustível.

“No próximo dia 31 finda o prazo da medida judicial que impede despejos no país. Se o STF não prorrogar a vigência da ADPF 828 mais de meio milhão de pessoas correm o risco de serem despejadas nos próximos meses. Nós estamos aqui reafirmando o nosso compromisso com as mais de 1.500 famílias que vivem nessas três ocupações. Vamos intensificar a nossa mobilização e exigir do poder judiciário a proteção de quem não têm como pagar um aluguel neste país”, disse Raimundo Bomfim.

Fruto da mobilização realizada no último dia 17, quando milhares de sem teto foram às ruas contra despejos em todo o Brasil, na próxima quarta-feira (30) haverá uma audiência no STF com o ministro Luís Roberto Barroso, responsável pelo julgamento do novo pedido de prorrogação da ADPF 828.

“Temos uma grande expectativa com essa audiência. Ela deve ocorrer no período da tarde, no intervalo da sessão da Suprema Corte. Disposição é o que não falta pra nós. Seguiremos firmes na luta porque ocupar neste país não é uma escolha”, explicou Dito que também é coordenador da Campanha Despejo Zero.

A assembleia com mais de mil pessoas neste domingo contou ainda com a presenta da deputada estadual professora Bebel (PT), os urbanistas Kazuo Nakano e Luiz Kohara, o Jadir do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Padre Naves, da Pastoral da Moradia, além do advogado das famílias, Doutor Victor. No próximo dia 9 de abril, os movimentos populares se juntam para mais um dia de luta, com a mobilização nacional Bolsonaro Nunca Mais!

Mais de 270 famílias estão ameaçadas de despejos na região metropolitana de Campinas


Enquanto movimentos populares lutam por uma prorrogação da vigência da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 828, no Supremo Tribunal Federal (STF), que impede despejos durante a pandemia, o judiciário paulista está prestes a cometer uma grande violência contra famílias que vivem no interior de São Paulo. No município de Campinas, mais de 30 famílias, que moram na Ocupação Raio de Sol, estão vivendo um verdadeiro drama com a possibilidade de serem retiradas à força de suas casas a qualquer momento.

Francisco Galvão, coordenador regional da Central de Movimentos Populares (CMP), conta que o prédio ocupado na região central de Campinas é privado, estava abandonado, sem cumprir nenhuma função social. “Ontem representantes dessa ocupação nos procuraram desesperados em busca de ajuda. Muitos estão desempregados e não têm outra alternativa de moradia. São mulheres, crianças e idosos que podem ficar sem teto se nada for feito para protegê-los. A pandemia não acabou e os mais pobres sofrem com as consequências da crise sanitária e econômica ”, conta.

A situação se repete na Ocupação Adelaide, em Hortolândia. No último dia 10 de março, a justiça do município emitiu ordem de despejo contra 245 famílias que moram no local desde 2016. “Neste caso, o juiz deu apenas 10 dias para as famílias deixarem os imóveis. Jogar essas pessoas nas ruas sem nenhuma alternativa, em meio as graves consequências da pandemia é desumano, é perverso”, ressalta Galvão.

Após um dia intenso de reunião, dados dos moradores das duas ocupações foram incluídos na Campanha Despejo Zero. A Defensoria Pública também foi acionada e, agora, as mais de 270 famílias ameaçadas de despejos na região metropolitana de Campinas contam com o apoio de advogados populares.

“Nós fizemos um trabalho de acolhimento dessas famílias. Além de buscar uma solução na justiça, estamos nos organizando para pressionar o poder público para que encontre uma alternativa habitacional para essas pessoas. As prefeituras precisam assumir o compromisso com a habitação popular e evitar o despejo dos mais vulneráveis”, explicou o coordenador regional da CMP.

*Despejos no Brasil*

No campo e na cidade, mais de 500 mil pessoas estão ameaçadas de despejo no Brasil. Nos últimos dois anos, mesmo com a vigência de diversas medidas judiciais para impedir remoções, mais de 27 mil pessoas foram retiradas de suas moradias. Apesar da violência do estado contra os mais vulneráveis, 106 despejos foram suspensos na pandemia com base na ADPF 828, evitando que mais de 22 mil famílias perdessem seus lares. Os dados são da Campanha Despejo Zero, que reúne informações sobre remoções desde março de 2020.

Para os movimentos populares que lutam por moradia no Brasil, o STF precisa com urgência prorrogar a ADPF 828, que vence no próximo dia 31 de março, para evitar uma tragédia no país e, assim, impedir que mais de 132 mil famílias fiquem sem teto no Brasil.

Movimentos populares debatem os desafios para a universalização dos serviços de água e esgoto no Brasil

No Dia Mundial da Água, 22 de março, a Central de Movimentos Populares (CMP) e o Fórum Alternativo da Água (FAMA) realizaram uma oficina para refletir o acesso à água e ao saneamento nas periferias, bem como as tarifas cobradas no país, cortes e esgotamento sanitário. Segundo dados do Instituto Trata Brasil, quase 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável e cerca de 100 milhões não são atendidos por serviço de coleta de esgotos no país.

Logo no início do evento virtual, Raimundo Bonfim, coordenador nacional da CMP, destacou que o Brasil é o país do mundo que possui a maior quantidade de água doce, com 12% do total que existe no planeta. É mais do que todo o continente europeu ou africano, por exemplo, que detêm 7% e 10%, respectivamente. Para ele, o acesso à água é muito desigual no país e o saneamento básico ainda está distante para muita gente.

“A água está ameaçada no Brasil. Nós precisamos lutar por políticas públicas capazes de garantir esse recurso natural para todos e todas. A água faz parte da nossa soberania. A pandemia nos mostrou a importância dela para a sobrevivência humana, não podemos permitir a mercantilização da água porque ela é um direito fundamental”, disse.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), 72% de toda a água consumida no Brasil é utilizada no agronegócio. Depois do setor agrícola, vem a atividade industrial, que é responsável por 22% do consumo de água. Somente depois vem o uso doméstico, que é responsável por cerca de 8% de toda a utilização dos recursos hídricos. Os dados foram lembrados na apresentação da socióloga Melayne Macedo Silva, do coletivo de Mulheres da CMP. Ela destaca que o cenário releva que não apenas as casas e os comércios devem economizar na utilização da água, mas também os setores primário e secundário da economia.

Melayne também conta que o acesso a água é ainda mais cruel para as mulheres. Ela aponta que mais de 15 milhões de brasileiras ainda não recebiam água tratada, em 2018, em suas residências. Além disso, há 12 milhões de mulheres que têm acesso à rede geral de distribuição de água, mas a frequência de entrega da água é insatisfatória.

“Muitas mulheres, em sua maioria negras e/ou em situação de extrema pobreza nas mais diversas regiões do mundo, precisam percorrer longas distâncias para encontrar fontes de água potável para a sua sobrevivência e a de sua família. […] Se não fosse a solidariedade dos movimentos populares a situação seria ainda mais grave. A gente vive a pandemia do vírus, a pandemia da fome, e para enfrentar todas elas o acesso universal da água é fundamental”, disse a socióloga.

Sobre os prejuízos que a privatização da água trará ao país, Letícia Oliveira, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), explica que a concessão da energia elétrica à iniciativa privada avançou muito no país nos anos 90. Desde então, os consumidores sofrem com sucessivos aumentos na conta de luz, uma vez que as empresas oferecem serviço para gerar lucro, com preço de mercado e não de custo.

“Nós estamos vivendo agora uma era da privatização do saneamento, do esgotamento sanitário. O novo Marco Regulatório abre a possibilidade de privatização dos serviços públicos de água e esgotos municipais. É muito importante que a gente incida na elaboração dos planos municipais de saneamento básico. Inclusive, com a narrativa de que água não seja privatizada. Precisamos defender um serviço público de qualidade”, disse Letícia.

No final do evento, a engenheira civil Renata de Faria Lima, doutora em Urbanismo, afirmou que o desafio para a universalização da água tem quatro aspectos fundamentais a serem superados. São eles, a questão urbana, ambiental, tecnológica e tarifária. Para ela, o Brasil vive tempos sombrios mesmo tendo a maior rede hídrica do mundo.

“A população está tomando água poluída por conta dos agrotóxicos, da atividade de mineração exagerada, da poluição por conta dos esgotos domésticos que têm poluído as nossas fontes de água. Além disso, a água está ameaçada pela ação descontrolada da indústria de bebidas em geral e a questão do desmatamento. Essa crise que estamos vivendo afeta a disponibilidade de água para o consumo. Se vai melhorar ou piorar, vai depender muito de como vamos atuar na defesa desse importante recurso natural”, pontua Renata.

O evento realizado na página do Facebook da CMP contou com a moderação do biólogo Eduardo Cardoso, da direção nacional da Central de Movimentos Populares. Assista ao vídeo e confira o debate na íntegra: https://www.facebook.com/cmpbrasil/videos/309860224568171

Protestos contra despejos em todo o país terminam com ação protocolada no STF

Milhares de sem teto foram às ruas nesta quinta-feira (17) contra os despejos durante a crise sanitária e econômica que assolam o país. Movimentos populares realizaram atos em pelo menos 20 cidades, em 18 estados, reivindicando a prorrogação da validade, no Supremo Tribunal Federal (STF), da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 828, que impede remoções e desocupações enquanto perdurar a pandemia da Covid-19.

No campo e na cidade, mais de 132 mil famílias estão ameaçadas de despejos. Nos últimos dois anos, mesmo com a vigência de diversas medidas judiciais para impedir remoções, mais de 27 mil famílias foram despejadas. Apesar da violência do estado contra as famílias mais vulneráveis, 106 despejos foram suspensos na pandemia com base na ADPF 828, evitando que mais de 22 mil famílias perdessem suas casas. Os dados são da Campanha Despejo Zero, que reúne informações sobre remoções desde março de 2020.

No final da mobilização nacional, a Central de Movimentos Populares (CMP), representada pela dirigente Cristiane Pereira dos Santos, outros movimentos populares e parlamentares protocolaram na Suprema Corte um pedido de prorrogação da APDF 828. “O ato aqui em frente ao Congresso Nacional foi pacífico. Contamos com o apoio do deputado Paulo Teixeira (PT) e da deputada Fernanda Melchionna (PSOL). Após a mobilização, fomos ao STF protocolar o pedido de prorrogação da liminar que impede despejos no país. Também solicitamos uma audiência com a equipe do ministro Luís Roberto Barroso e, felizmente, fomos muito bem recebidos”, explicou a dirigente da CMP.

Mais de 10 mil pessoas na Avenida Paulista


Com mais de 42 mil famílias ameaçadas de despejos em São Paulo, a Avenida Paulista reuniu nesta tarde mais de 10 mil pessoas em um forte apelo contra as remoções. A manifestação fechou as duas vias da principal avenida da capital paulista, na altura do vão livre do Masp. Mais cedo, um grupo de manifestantes também protocolou no Tribunal de Justiça de São Paulo um pedido de prorrogação da ADPF 828. Na ocasião, uma comissão foi recebida por representantes do judiciário.

Segundo dados da Campanha Despejo Zero, o estado de São Paulo lidera o ranking de pessoas que podem ficar sem teto no país, seguido do Rio de Janeiro, com a remoção de 5.560 famílias, e Amazonas, com 3.731. Exatas 6.017 famílias foram retiradas de seus lares no estado paulista.

“A mobilização foi gigante em São Paulo. Somente a nossa luta poderá garantir dignidade a essas famílias. Despejar mais de 500 mil pessoas em meio à crise sanitária, social e econômica será uma tragédia para história do nosso país. Moradia é direito. Não vamos permitir essa violência em São Paulo e em lugar nenhum do Brasil”, disse Raimundo Bonfim, coordenador nacional da CMP.

Mais de 3.500 famílias estão em risco no Piauí


Com cartazes e carro de som, centenas de pessoas tomaram às ruas em Teresina, no Piauí, nesta tarde, pedindo a prorrogação da ADPF 828. Nas faixas, cartolinas e vestimentas a mensagem era clara: “Lar é uma Moradia Onde existe Amor”. No estado, mais de 3.500 famílias estão convivendo com o fantasma do despejo.

Neide Carvalho, dirigente estadual da CMP no Piauí, destacou que uma família que vive com menos de 1 salário-mínimo está na linha de miséria. “São milhares de famílias em risco aqui no Piauí. Hoje nós viemos trazer a nossa luta e solidariedade a quem não consegue pagar um aluguel. O Brasil tem mais de 13 milhões de desempregados, as pessoas estão passando fome. O custo de vida aumentou significativamente. No Brasil de Bolsonaro não temos um minuto de sossego”, disse a dirigente.

Sem dinheiro para comer


Sob sol forte, movimentos populares também protestaram na Cinelândia, região central do Rio de Janeiro, contra as remoções no país. O ato ocorreu em frente ao Tribunal de Justiça, que também recebeu um pedido de prorrogação da medida que impede despejos no país.

No estado, quase 6 mil famílias correm risco de serem despejadas. O drama da moradia só fez aumentar no Rio de Janeiro com o desastre ambiental que atingiu Petrópolis. A tragédia matou 233 pessoas e deixou mais de 600 desabrigados.

“Aqui no Rio, como em todo Brasil, a população não tem dinheiro para comer, comprar gás, quanto mais pagar aluguel ou comprar casa. Por isso, estamos nas ruas e pedimos pelo despejo zero. Não dá para aceitar um absurdo desse. A pandemia não acabou. Moradia é um dever do Estado”, disse Ângela Maria Cassiano, da direção da CMP-RJ.

Mães solo podem ficar no olho da rua


Em Belém do Pará, movimentos populares participaram da mobilização em frente ao Tribunal de Justiça do Estado cobrando o direito constitucional de moradia contra as ameaças de despejo que estão suspensas devido ao ADFP 828. Durante o ato, os manifestantes ecoavam “Prorroga STF”, “Resolva o problema da Moradia”, “Despejo na pandemia é crime!”, “É pela vida das famílias do campo e da cidade”.

“O contexto da pandemia aprofundou ainda mais as desigualdades sociais, raciais e de gênero. O perfil das famílias a serem despejadas são majoritariamente lideradas por mulheres, mães solos e mulheres negras, impactando inclusive crianças e idosos. No Pará, seguiremos no diálogo com a sociedade e o poder público”, explica Paulo Cohen, da direção nacional da CMP.

10 mil famílias em risco em Rondônia


Em Porto Velho, a mobilização também ocorreu em frente ao Tribunal de Justiça de Rondônia. Durante o evento, várias organizações do campo e da cidade se mobilizaram para que o judiciário prolongue a proibição das remoções. Em Rondônia, os despejos ameaçam mais de 10 mil famílias.

“Fizemos uma mobilização pacífica com a participação de pessoas de diversas entidades e movimentos populares e pastorais sociais. O ato teve início com a fala dos representantes das entidades e logo em seguida protocolamos o nosso manifesto junto ao Tribunal de Justiça de Rondônia. Não ao despejo. Nós vamos vencer essa luta”, finaliza Eliel Cunha, coordenador da CMP em Rondônia.

Movimentos populares protestam contra o aumento na conta de luz em SP

A Central de Movimentos Populares (CMP) e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) realizaram um protesto nesta terça-feira (15) em frente à sede da Enel, na zona sul de São Paulo, contra o aumento abusivo na conta de luz. Com cartazes e caixa de som, o grupo de manifestantes denunciou a falta de sensibilidade da empresa, que promove aumentos significativos da energia, em um cenário de desemprego e inflação elevados.

Segundo Nani Cruz, da Central de Movimentos Populares, as famílias de baixa renda estão sofrendo muito com o aumento excessivo nas tarifas. “Muitas pessoas estão deixando de comer para pagar a conta de luz. Nós tivemos acesso a um caso que o valor cobrado pela conta do mês é de R$ 1.622. Isso é um absurdo. Uma família que tem renda de R$ 2 mil, como vai conseguir pagar um boleto desse?”, indagou.

Durante o protesto, os manifestantes também relataram dificuldades em negociar contas com a empresa. De acordo com os clientes, o atendimento só é feito com agendamento realizado por meio do site da Enel. “O atendimento presencial leva um mês pra acontecer depois de ser solicitado no site. Quando a gente chega aqui o sistema sempre está fora do ar. Além disso, somos atendidos por funcionários terceirizados, que não resolvem os nossos problemas. Não podemos aceitar essa situação”, disse Nani.

Antes de encerrar o ato, a representante da CMP lembrou que a precarização no setor de energia elétrica no país faz parte das privatizações que estão em curso pelo governo Bolsonaro. “O aumento da conta de luz é fruto do entreguismo dos nossos bens para o setor privado. É isso que o governo quer fazer com a educação e a saúde. Precisamos descontruir a ideia de que o serviço público não presta. Vamos lutar pela nossa soberania, pelo o que é nosso”, defendeu Nani.

CMP realiza debate sobre a guerra entre a Rússia e Ucrânia e seu impacto no cenário internacional

A Central de Movimentos Populares (CMP) realizou nesta terça-feira (15/03) um debate sobre a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, sua origem e os impactos no cenário internacional. Em um evento virtual destinado à direção nacional da entidade, o historiador Valter Pomar, professor da Universidade Federal do ABC e membro da direção nacional do PT, e a socióloga Maria Lúcia Silveira, do Coletivo de Formação da Marcha Mundial das Mulheres, apontaram alternativas para um cessar-fogo e destacaram os interesses dos Estados Unidos com o conflito.

Para Pomar, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia só terá fim quando a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) recuar e a Ucrânia assumir uma posição de neutralidade. “Nós queremos um cessar-fogo, uma negociação efetiva para acabar com a guerra, mas queremos também uma saída enfraquecida da Otan, dos governos imperialistas e, sobretudo, dos Estados Unidos”, disse o historiador.

Questionado sobre a questão do petróleo e da dependência do Brasil nos fertilizantes vindos da Rússia, o professor da UFABC ressaltou que “o conflito na Europa trouxe uma grande lição para o nosso país, uma vez que evidenciou a necessidade de se produzir aqui dentro tudo que é estratégico para a nossa sobrevivência”.

Em um discurso bastante preocupado com a vulnerabilidade das mulheres em zonas de conflito, a socióloga Maria Lúcia Silveira chamou a atenção para o tráfico de mulheres nas fronteiras. “A guerra é cruel para toda a sociedade, mas para as mulheres ela pode ser ainda mais grave. Muitos se aproveitam da fragilidade do momento para o sequestro de mulheres e crianças. Nós sabemos que há bases militares em guerras e, infelizmente, a exploração sexual acontece. A declaração feita pelo deputado paulista Arthur do Val é um exemplo de como a guerra é ainda mais dura para a mulher”, declarou.

Por fim, Maria Lúcia compartilhou a direção da CMP experiências de coberturas jornalísticas em guerras e disse acreditar que, por mais que a Rússia e a Ucrânia negociem um cessar-fogo, as consequências do conflito vão perdurar por um bom tempo na Europa.

Disso decorre a importância da organização popular para superar a crise sistêmica do capitalismo em favor das classes trabalhadoras, do povo pobre e das mulheres, que são quem sofre com as consequências dos conflitos entre potências capitalistas.

Movimentos populares vão às ruas contra os despejos durante a pandemia em todo o país

A Campanha Despejo Zero e um conjunto de movimentos populares promovem nesta quinta-feira (17/03) uma mobilização nacional em todo o país contra os despejos no Brasil. No próximo dia 31 de março, vence o prazo da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 828), que proíbe despejos de famílias no campo e na cidade durante a pandemia da covid-19. E, caso a liminar não seja prorrogada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mais de 132 mil famílias, o que corresponde a mais de 500 mil pessoas em risco de ficar sem teto no país.

Segundo os organizadores, os atos que pedirão ao STF a prorrogação da liminar ocorrerão em pelo menos 13 estados, entre eles Pará, Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Raimundo Bonfim, coordenador nacional da Central de Movimentos Populares (CMP), entidade que integra a Campanha Despejo Zero, destaca que a pandemia ainda não acabou e a população mais vulnerável continua sofrendo as consequências da grave crise sanitária. “O Brasil tem hoje 13 milhões de desempregados. Muitas famílias não conseguem pagar seus alugueis porque estão sem renda. E ainda precisam lidar com o aumento da conta de luz, do gás de cozinha e com a falta de comida no prato. Retirar essas pessoas de suas casas à força neste contexto é desumano, é cruel, é uma violação aos direitos humanos. O STF precisa prorrogar com urgência a ADPF 828”.

Os últimos dados da Campanha Despejo Zero revelam que, mesmo com a vigência de diversas medidas judiciais para impedir remoções em meio à crise sanitária, mais de 27 mil famílias foram despejadas durante a pandemia. São Paulo lidera o ranking de despejos nos últimos dois anos. Neste período, 6.017 famílias foram retiradas de seus lares no estado paulista, seguido do Rio de Janeiro com a remoção de 5.560 famílias e da Amazonas com 3.731. Apesar da violência do estado contra às famílias mais vulneráveis do país, 106 despejos foram suspensos na pandemia com base na ADPF 828, evitando que mais de 22 mil famílias perdessem suas casas.

“Em consequência das crises, remoções e despejos, a população em situação de rua disparou nos últimos anos. A situação só fez piorar também com os desastres ambientais que causaram a perda de moradias e deixaram milhares de pessoas desabrigadas, especialmente nos Estados de Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro. Essas tragédias não são fruto de causas naturais. Elas decorem da profunda destruição ambiental que altera mudanças climáticas, ausência de política habitacional, especulação imobiliária e desigualdade social”, afirma Bonfim.

Nos próximos dias, a Campanha Despejo Zero vai protocolar um pedido de prorrogação da ADPF 828 para que a liminar tenha validade enquanto perdurar a pandemia da Covid-19. “Nós não vamos aceitar milhares de famílias serem despejadas. Por isso, estamos convocando toda a população para participar das nossas mobilizações que ocorrerão em todo o país, especialmente em frente ao STF, em Brasília, e nos Tribunais de Justiças nos estados, ressalta o coordenador nacional da CMP.